Corte de R$ 200 bilhões atingiria gastos sociais, avaliam economistas

Trader Iniciante - RedaçãoTrader Iniciante - RedaçãoMercado Financeiro4 horas atrás9 Visualizações

Um corte de gastos públicos próximo de R$ 200 bilhões, como os discutidos na campanha presidencial de 2026, não permitiria preservar simultaneamente os programas sociais e os reajustes do salário mínimo, das pensões e das aposentadorias, avaliam os economistas Pedro Paulo Zahluth Bastos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB). Para eles, uma redução dessa dimensão alcançaria a área social, diretamente ou por seus efeitos sobre a economia.

O debate envolve propostas das campanhas de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Flávio afirma que pretende preservar programas e benefícios sociais, enquanto a equipe de Lula defende um ajuste gradual em um eventual quarto mandato. As avaliações dos economistas apontam limites para cortes expressivos sem afetar serviços públicos ou o crescimento dos benefícios.

Por que o tamanho do corte importa para os benefícios

Bastos, professor do Instituto de Economia da Unicamp, afirma que cerca de 90% do gasto primário federal corresponde a despesas obrigatórias. Ele inclui nessa parcela a Previdência, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), os gastos com pessoal, os pisos de saúde e educação e o Bolsa Família.

Segundo o professor, as despesas discricionárias — aquelas que o governo pode usar livremente — somam pouco mais de R$ 200 bilhões. Esse conjunto não se limita a gastos administrativos: inclui investimentos e recursos para o funcionamento de universidades, hospitais federais e da Polícia Federal (PF).

“Um corte de R$ 200 bilhões que preserve os benefícios sociais zera o resto. Se não zera, entra nos benefícios. Não há terceira opção”, afirma Bastos.

Na avaliação do economista, alcançar uma redução equivalente a 1,5% a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) exigiria diminuir despesas obrigatórias ou modificar os cálculos dos reajustes dos benefícios existentes. Nesse segundo cenário, a perda não estaria necessariamente no pagamento atual, mas nos aumentos futuros.

“Ninguém perde o benefício de hoje, perde o reajuste de amanhã. O aposentado que ganha um salário mínimo deixa de ter o ganho real que teve todos os anos desde 2023. Em dez anos, isso é uma reforma da Previdência feita sem votar reforma da Previdência”, argumenta.

Bastos também contesta a possibilidade de obter centenas de bilhões de reais apenas com a eliminação de privilégios e desperdícios. Segundo ele, essas despesas representam alguns bilhões de reais, uma dimensão inferior à dos cortes discutidos.

“Supersalários e penduricalhos acima do teto são um problema de justiça, não de orçamento. Extinguir dez ministérios economiza o custo administrativo, que é pequeno; o dinheiro está nos programas que os ministérios executam”, afirma.

Sobre o combate a fraudes no INSS, o professor avalia que a recuperação de recursos pode ocorrer uma vez, mas não produziria receitas durante todo o ano. “Nenhum governo cortou R$ 200 bilhões em desperdício. Quem cortou, cortou da população”, acrescenta.

Efeitos sobre renda, emprego, saúde e educação

Maria Lourdes Mollo, professora de economia da UnB, considera que cortes substanciais no orçamento afetariam a área social também por um caminho indireto: a perda do estímulo que as despesas públicas proporcionam à renda e ao emprego.

“Não apenas em função das políticas sociais especificamente, que serão comprometidas, mas porque os gastos públicos têm um efeito multiplicador na renda e no emprego que é perdido”, explica.

Na avaliação da professora, os gastos do governo ajudam a estimular a atividade econômica. Com as altas taxas de juros praticadas no Brasil, uma redução dessas despesas tenderia a provocar retração na economia como um todo.

Mollo aponta ainda uma ligação entre atividade econômica, arrecadação e financiamento dos serviços públicos. Se a produção cai, a arrecadação também diminui, segundo ela, reduzindo os recursos destinados a saúde e educação, cujos valores correspondem a uma proporção da receita.

O que as campanhas propõem para o ajuste fiscal

Flávio Bolsonaro defendeu um “tesouraço” inspirado no governo de Javier Milei, que realizou cortes em saúde, educação e alimentação na Argentina. Posteriormente, o candidato passou a sustentar que, se eleito, não reduzirá programas e benefícios sociais.

Em agosto de 2026, a coordenadora de sua equipe econômica, Daniella Marques, afirmou em entrevista à Globo News que o plano prevê mudanças nas regras fiscais para controlar a dívida pública. A proposta inclui um ajuste de 1,5% do PIB, correspondente a aproximadamente R$ 190 bilhões quando considerado o PIB de 2025.

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Foto: Foto: reprodução

Lula afirma que o “tesouraço” defendido pelo adversário deve prejudicar aposentados e pensionistas do INSS e beneficiários de programas sociais. O senador fluminense e presidenciável do PL nega essa possibilidade. “Eu não vou fazer economia em cima de quem precisa, das pessoas mais carentes desse Brasil”, declarou Flávio.

Na reta recente da campanha, a equipe de Flávio tem apresentado os cortes como restritos a supostos privilégios do funcionalismo público, entre eles os supersalários, e a outras despesas da máquina pública. O candidato também defende ampliar as ações contra fraudes.

Já a equipe de Lula considera necessário realizar um ajuste fiscal em um eventual quarto mandato, mas sustenta que ele seria gradual, distribuído pelos quatro anos de governo.

Em entrevista exclusiva à Folha de São Paulo, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, projetou uma passagem de déficit nas contas públicas de 0,5% do PIB em 2026 para superávit de 1,5% em 2030.

“Nós estamos falando de desacelerar despesas obrigatórias, compatibilizar o direito das pessoas com o processo de manter as contas públicas em ordem”, afirmou Moretti.

Juros, dívida pública e as regras para as despesas

A redução dos gastos públicos está entre as principais exigências do mercado financeiro a governos e candidatos. O argumento é que as despesas pressionam a dívida pública e poderiam comprometer a sustentabilidade das contas do Estado brasileiro.

Bastos apresenta uma avaliação diferente sobre a principal pressão sobre o déficit: os juros, que, segundo ele, consomem cerca de R$ 1 trilhão por ano. Em setembro de 2026, o Brasil alcançou as maiores taxas reais de juros do mundo, de acordo com a consultoria Moneyou.

Ao expor sua crítica, o professor cita um déficit do setor público de 0,6% do PIB e despesas com juros de 8,9% do PIB. O percentual de déficit mencionado por Bastos é diferente dos 0,5% do PIB apresentados por Moretti para as contas públicas de 2026.

“O setor público tem déficit de 0,6% do PIB. Os juros custam 8,9% do PIB. Cortar 1,5% do PIB de quem recebe aposentadoria e Bolsa Família, enquanto se paga 8,9% do PIB a quem tem título público, não é ajuste. É escolha de quem paga”, critica Bastos.

As campanhas também divergem sobre as regras que devem orientar as despesas. Aprovado no início do atual governo Lula, o Novo Arcabouço Fiscal limitou o crescimento dos gastos em relação ao PIB de acordo com o avanço da receita.

O candidato à reeleição promete manter esse mecanismo. Seu plano de governo afirma que o arcabouço “controlou o crescimento das despesas sem prejudicar as políticas sociais e permitiu uma redução significativa do déficit primário”.

O candidato do PT defende que o resultado fiscal seja obtido pela retomada do crescimento econômico, pelo controle do aumento do gasto primário e pela melhoria da eficiência e da qualidade das despesas públicas.

A campanha de Flávio, por sua vez, propõe alterar o arcabouço para estabilizar e reduzir a dívida pública, obter superávits primários e limitar o crédito subsidiado. “A meta é alcançar, no menor prazo possível, a estabilidade e depois a queda da relação Dívida/PIB”, estabelece o documento oficial da campanha do PL.

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