O clima entre Brasília e Washington voltou a azedar. Pedidos de sanções feitos por filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, aliados ao discurso do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), abriram espaço para novas barreiras contra o agronegócio brasileiro. O argumento principal é de que produtores do país se beneficiariam de áreas desmatadas ilegalmente, o que geraria concorrência “desleal” com os agricultores norte-americanos.
O que já está na mesa
- O USTR incluiu o Brasil na lista de países sujeitos a tarifas, mas manteve isentos itens como carne bovina, café, celulose, suco e madeira — juntos, US$ 3,65 bilhões em vendas no primeiro semestre.
- No total, o agro brasileiro enviou US$ 6,7 bilhões aos EUA no período e importou US$ 2,5 bilhões. O superávit de US$ 4,2 bilhões compensa parte do déficit histórico na balança industrial.
- Mesmo com isenções, a sinalização política de Washington indica que novos produtos podem entrar na mira quando a oferta interna norte-americana melhorar.
Por que a política pesa tanto
A base eleitoral de Donald Trump é fortemente ligada ao campo. Ao dificultar a vida de concorrentes externos, o ex-presidente tenta atender às demandas de produtores locais sem provocar choque imediato com a China, principal foco de sua guerra comercial. Nesse cenário, o Brasil — segundo maior exportador mundial de alimentos — vira alvo conveniente.
Autoridades norte-americanas também citam o aumento do desmatamento na Amazônia. A narrativa ressoa entre parlamentares que defendem pautas ambientais e pode ganhar força em ano eleitoral nos EUA.
Setores sob potencial impacto
- Proteína animal – JBS, Marfrig, Minerva e outras exportadoras hoje aproveitam isenção, mas um aperto tarifário reduziria margens e poderia afetar cotações na B3.
- Café – O Brasil responde por cerca de um terço do café consumido nos EUA. Tarifas encareceriam o produto e poderiam deslocar parte da demanda para fornecedores menores, como Colômbia e Vietnã.
- Celulose e papel – Empresas como Suzano e Klabin têm os EUA como mercado relevante. Custos adicionais tenderiam a ser repassados aos compradores, pressionando a competitividade.
- Etanol – Setor já vive atritos bilaterais. Produtores norte-americanos indicam que sobretaxas podem desorganizar preços domésticos, criando impasse interno nos EUA.
O que observar daqui para frente
- Próximos relatórios do USTR – Mudanças na lista de produtos isentos devem ser monitoradas por exportadores e investidores.
- Retórica eleitoral nos EUA – Quanto mais acirrada a disputa, maior o risco de medidas protecionistas de curto prazo.
- Indicadores de câmbio – Escalada de barreiras costuma pressionar o real, já que reduz perspectivas de entrada de dólares via exportações.
- Reação de Brasília – Eventuais contramedidas podem envolver a Organização Mundial do Comércio (OMC) ou negociações setoriais, influenciando empresas listadas e produtores rurais.
O que isso significa para o investidor iniciante
Exportações são parte importante do faturamento de várias companhias de grande porte negociadas na Bolsa. Tarifas mais altas podem:
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
- diminuir receitas em dólar;
- reduzir lucros e, consequentemente, dividendos futuros;
- aumentar a volatilidade das ações do setor agroindustrial.
Além disso, restrições comerciais costumam influenciar o humor do mercado, podendo fortalecer o dólar e mexer com títulos pós-fixados atrelados ao CDI, já que o Banco Central monitora impactos cambiais na inflação.
Por ora, as barreiras permanecem circunscritas a uma fração da pauta exportadora. Entretanto, a combinação de tensões políticas internas, discurso ambiental e calendário eleitoral nos EUA deixa o agronegócio brasileiro em observação — e, com ele, boa parte da carteira de quem investe em empresas do setor.