O volume de novos empréstimos consignados concedidos a beneficiários do INSS somou R$ 22,6 bilhões entre janeiro e abril de 2026, queda de 40% em relação ao mesmo período de 2024, de acordo com o Banco Central. O recuo interrompe um ciclo de fortes expansões e coloca em evidência dois fatores principais: a exigência de biometria para contratação e o aumento do endividamento dos idosos.
Por que a biometria mudou o jogo
- Desde maio de 2025, o segurado precisa confirmar a identidade via reconhecimento facial no aplicativo Meu INSS, usando a base do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
- Segundo o próprio instituto, 25% dos aposentados não têm biometria registrada no TSE, ficando, na prática, fora dessa linha de crédito.
- Bancos alegam que o processo exige até 19 etapas e causa desistência, enquanto especialistas veem o filtro como forma de frear fraudes que incluíam concessões a beneficiários já falecidos.
Endividamento pressiona a demanda
- Estudo da Serasa revela que, em dezembro de 2025, quase 50% das pessoas acima de 60 anos estavam negativadas, ante 35% no fim de 2021.
- Quase 80% dos aposentados comprometem de 81% a 100% da renda com contas fixas e dívidas, limitando espaço para novas parcelas mesmo em linhas mais baratas.
- Hoje, 38% dos beneficiários do INSS já têm ao menos um consignado em aberto.
O consignado continua barato, mas menos acessível
Com taxa média de 23,9% ao ano em abril, o consignado do INSS custa menos da metade dos 63% anuais observados em outras modalidades de crédito pessoal. Para o investidor iniciante, isso reforça a lógica de que juros mais baixos costumam vir acompanhados de garantias — no caso, o desconto direto no benefício. Quando o risco de fraude ou de superendividamento cresce, o mercado tende a apertar as exigências.
Impacto econômico e reflexos para o mercado
- A retração acontece após o estoque de consignado mais que dobrar entre 2020 e 2024, alcançando R$ 281,7 bilhões em abril de 2026.
- Menos crédito para idosos pode reduzir o consumo de curtíssimo prazo, mas também mitiga o risco sistêmico de inadimplência em um segmento vulnerável.
- Para as instituições financeiras, a queda de volume pressiona receitas e pode incentivar oferta de produtos mais caros, algo que preocupa órgãos de defesa do consumidor.
O que observar daqui para frente
- Negociações entre governo e bancos buscam alternativas à biometria do TSE, como o uso do login Gov.br. Mudanças podem reabrir o mercado no segundo semestre.
- Discussão sobre um novo marco regulatório para crédito, sugerida por especialistas da FGV, inclui limites de comprometimento de renda e fiscalização mais rígida de ofertas.
- A tendência de juros básicos — Selic — continuará influenciando a atratividade do consignado em relação a outras modalidades. Quanto menor a Selic, menor a diferença de custo entre linhas de crédito.
Para o investidor comum, a principal lição é que medidas de segurança e educação financeira pesam tanto quanto a taxa de juros na saúde do mercado de crédito. O cenário atual indica uma inflexão: acesso um pouco mais difícil, porém potencialmente mais seguro, a uma linha que já foi alvo de abusos frequentes.
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante