A recente onda de saques que atingiu grandes gestoras nos Estados Unidos decorre de falhas de estrutura dos produtos, e não de deterioração dos ativos, avaliou Alexandre Muller, sócio e gestor de crédito privado da JGP. Segundo ele, a diferença entre o valor patrimonial divulgado pelos fundos e o preço de negociação das cotas na bolsa cria um incentivo imediato ao resgate: “o investidor realiza ganho quando pede o resgate”, afirmou no programa Carteiros do Condado, da XP.
O mecanismo funciona da seguinte forma: os fundos listados nos EUA permitem que o cotista venda as cotas em mercado aberto ou solicite resgate trimestral limitado a 5% do patrimônio. Como os gestores fazem a marcação dos ativos internamente, o valor patrimonial permanece acima do preço de tela, especialmente após a queda das ações de empresas de software – setor que preocupa investidores diante dos avanços em inteligência artificial. Assim, quem opta pelo resgate recebe mais do que quem vende em bolsa, alimentando novos pedidos de saque.
Com o volume de solicitações ultrapassando o teto trimestral, casas como Apollo (NYSE: APO; BDR: A1PO34), Blackstone (NYSE: BX; BDR: BLKS34) e Blue Owl (NYSE: OWL) impuseram restrições adicionais aos resgates. Na esteira da movimentação, o Morgan Stanley também limitou saques em seus fundos de crédito.
A discrepância surge num momento em que vozes influentes do sistema financeiro norte-americano elevam o tom. Jamie Dimon, presidente do JPMorgan (NYSE: JPM; BDR: JPMC34), comparou recentes excessos do crédito privado aos pré-crise de 2008. Howard Marks, fundador da Oaktree, atribuiu em carta pública os exageros da indústria a fatores comportamentais como inveja e medo de ficar de fora.
Muller lembrou que o mercado de crédito privado dos EUA ganhou força após 2008, quando regras de capital mais rígidas para bancos abriram espaço para fundos financiarem empresas diretamente. O ambiente de juros baixos nos 15 anos seguintes impulsionou a captação.
No Brasil, a dinâmica é distinta: mesmo fundos focados em dívidas específicas precisam de autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e contam com administradores independentes para a marcação dos ativos, o que reduz o risco de desalinhamento entre valor patrimonial e preço de mercado.
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Para o gestor da JGP, a turbulência atual está no formato híbrido dos veículos listados, não na qualidade do crédito privado como classe de investimento. Ele destaca que o segmento segue apto a estruturar empréstimos sob medida para data centers, energia limpa e royalties musicais, contando ainda com melhor alinhamento de prazo entre ativos e passivos quando o capital vem de seguradoras que oferecem planos de aposentadoria de longo prazo.
No Brasil, a lista de eventos de crédito desde 2023 inclui Americanas (B3: AMER3), Light (B3: LIGT3) e, mais recentemente, os pedidos de recuperação extrajudicial de Raízen (B3: RAIZ4) e Grupo Pão de Açúcar (B3: PCAR3) em março. Apesar dos casos, os apresentadores Lucas Collazo e Davi Fontenele, da XP, observaram que a dispersão de desempenho entre gestores é grande e que o papel do gestor é justamente antecipar problemas e reduzir exposição antes que o prejuízo se consolide.
Para Muller, compreender as diferenças de estrutura e regulação entre os dois mercados é crucial para avaliar o real risco dos produtos de crédito privado em cada país.