O fechamento do estreito de Hormuz, provocado pelo conflito no Irã, interrompeu a trajetória de crescimento das vendas brasileiras aos países do Golfo Pérsico. Segundo dados do ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), e da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB), as exportações para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Bahrein e Omã caíram 31,47% em março, na comparação anual, alcançando US$ 537,11 milhões.
Mesmo com a retração nas vendas, o mês terminou com superávit comercial de US$ 41,4 milhões, pois as importações cresceram 113% no período mais crítico do conflito.
De janeiro a março, as exportações somaram US$ 2,41 bilhões, alta de 8,14% sobre igual intervalo de 2025. As importações totalizaram US$ 1,4 bilhão, gerando saldo positivo de US$ 1 bilhão.
Responsável por aproximadamente 75% das vendas à região, o agronegócio registrou queda de 25,38% em março, mas mantém avanço de 6,8% no trimestre, a US$ 1,44 bilhão.
De acordo com Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, a elevação da receita com carne bovina decorre principalmente do aumento do preço médio, enquanto o volume embarcado diminuiu.
Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos concentraram 46,2% e 38,5%, respectivamente, das exportações brasileiras para o Golfo. Os itens mais comercializados foram carnes de aves e derivados (34,6%), ouro não monetário (10,2%), açúcares e melaços (10,1%) e carne bovina (8,7%).
Em março, contudo, houve fortes quedas nos embarques de carne bovina para Qatar (-55,3%), Emirados Árabes (-49,5%) e Iraque (-42,5%). O professor Celso Grisi, da FEA-USP, atribui a retração ao aumento de “taxas de guerra”, à necessidade de contornar a África e ao consequente encarecimento do frete e do seguro.
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Grisi destaca que a demanda por carne halal, processada segundo preceitos islâmicos, continua firme e que o Brasil permanece como maior exportador mundial desse segmento, apesar do ambiente de custos elevados e incerteza logística.
A pauta de importações da região é pouco diversificada e se concentra em cinco produtos. Entre eles, os fertilizantes tiveram salto de 268% em março frente a fevereiro, chegando a US$ 30 milhões, com volume de 52,9 mil toneladas (+171%). No trimestre, porém, houve queda de 51,35% em valor e quase 60% em volume. A CCAB informa que parte das remessas de fertilizantes vindas do Qatar foi transportada por via aérea para evitar o bloqueio marítimo.
Já as compras de petróleo, minerais betuminosos e óleo bruto recuaram 21% em março ante fevereiro, de 633 mil para 500 mil toneladas, e 6,14% em valor, de US$ 393,6 milhões para US$ 369,4 milhões. Em relação ao primeiro trimestre de 2025, houve alta de 29,5%, totalizando US$ 1 bilhão.
O quadro, segundo analistas, reforça o peso das oscilações logísticas no comércio entre Brasil e Golfo Pérsico durante períodos de conflito na região.