Com os títulos públicos indexados à inflação oferecendo prêmios reais entre 6,8% e 7,4% ao ano, investidores se perguntam se ainda compensa assumir o risco das ações para obter renda via dividendos. Analistas ouvidos pelo InfoMoney afirmam que a resposta é positiva, mas destacam cuidados com preços e composição da carteira.
Enquanto o Tesouro IPCA+ garante o retorno real no ato da compra, o pagamento de dividendos depende de lucros futuros e decisões de governança. Fernando Benavenuto, sócio da Anvex Capital, lembra que o argumento pró-ações está no yield sobre o custo de aquisição ao longo dos anos, não no percentual atual.
Lucas Girão, economista da B7 Business School, acrescenta que os lucros tendem a acompanhar a inflação, permitindo reajustes nos proventos. Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, frisa três fontes de ganho dos papéis: dividendo, crescimento desse fluxo e valorização da cotação.
Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, adverte que ações não são renda fixa; quanto menor o horizonte de investimento, menor deve ser a fatia destinada à Bolsa. Paulo Monteiro, head da Gravus Capital, reforça que nenhuma empresa é “inquebrável” e que quedas expressivas podem anular anos de proventos.
O fluxo para empresas defensivas nos últimos meses elevou as cotações de elétricas e saneamento, comprimindo rendimentos. Girão observa que, quando o preço sobe e o dividendo fica estável, o yield encolhe. Ainda assim, analistas encontram distorções.
Belitardo cita companhias do setor elétrico com projeção de remuneração acima de 9%, como CPFL Energia (CPFE3) e Cemig (CMIG4). Fora desse segmento, ele vê assimetrias em bancos corporativos — ABC Brasil (ABCB4) e Banco do Brasil (BBAS3) —, seguradoras — BB Seguridade (BBSE3) e Caixa Seguridade (CXSE3) — e empresas de logística e locação pesada, como Vamos (VAMO3), JSL (JSLG3) e Movida (MOVI3).
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Benavenuto observa que setores penalizados pelos juros altos, como telecomunicações e varejo de qualidade, exibem múltiplos mais atrativos. Minotto destaca que as melhores chances podem estar em empresas de menor capitalização, as small caps.
Para quem começa a formar renda passiva, especialistas sugerem evitar extremos. Girão recomenda aproveitar a janela histórica de 7,4% de juro real do Tesouro IPCA+ para proteger entre 60% e 70% do patrimônio, deixando o restante em ações geradoras de dividendos e potencial de valorização.
Para perfis mais conservadores ou em fase inicial de acumulação, Monteiro propõe iniciar com 90% em renda fixa e 10% em renda variável, aumentando gradualmente a participação em ações conforme o investidor ganha confiança e compreensão dos riscos.