O recuo recente das ações da Axia Energia (AXIA3) — companhia que sucedeu a Eletrobras após a privatização — chamou a atenção do Bradesco BBI. Em relatório encaminhado a clientes, o banco classificou o movimento como “oportunidade tática de entrada” e reiterou recomendação de compra.
Mesmo revisando para baixo as projeções de curto prazo, o BBI elevou ligeiramente o preço-alvo para R$ 73 (de R$ 72). O ajuste reflete, segundo a instituição, a percepção de que o mercado está embutindo nos papéis um preço de energia de longo prazo em torno de R$ 190/MWh — bem abaixo dos R$ 227/MWh utilizados pelo próprio banco.
Por que a projeção de dividendos foi mantida?
- Dividend yield estimado em 8%: para 2026, o BBI continua esperando distribuição de R$ 12,5 bilhões, o que implicaria retorno em dividendos próximo de 8% sobre o valor de mercado atual. Dividend yield é o indicador que mostra quanto o investidor recebe em dividendos em relação ao preço da ação — útil para comparar empresas pagadoras.
- Programa de recompra de R$ 4 bilhões: além dos proventos em dinheiro, a companhia anunciou recompra de ações. Como o número de papéis em circulação diminui, o lucro por ação tende a aumentar, reforçando a remuneração do acionista.
Revisões de curto prazo pesam no EBITDA
O banco reduziu suas estimativas para o segundo trimestre de 2026. A queda dos preços de curto prazo da energia — de R$ 280/MWh para aproximadamente R$ 160/MWh — e um GSF (fator que mede a disponibilidade hídrica) menor, agora em 0,80, levaram o BBI a projetar:
- EBITDA de R$ 6,3 bilhões no 2T26 (10% abaixo da projeção anterior e 19% inferior ao consenso de mercado);
- EBITDA ajustado de R$ 29,1 bilhões e lucro líquido de R$ 10,6 bilhões para o ano fechado de 2026.
O impacto mais forte ocorre em contratos de energia descontratada nas regiões Norte e Nordeste, áreas onde a volatilidade dos preços costuma ser maior.
O que sustenta a visão positiva no longo prazo?
- Custo marginal de expansão elevado: o BBI calcula que novos projetos eólicos exigem preço acima de R$ 280/MWh, enquanto projetos solares precisam de mais de R$ 300/MWh para se viabilizar. Essa barreira de entrada tende a sustentar preços mais altos a partir de 2027.
- Crescimento estrutural da demanda: a expansão do consumo de energia no Brasil, puxada por eletrificação da frota, digitalização e indústria de dados, reforça a tese de preços firmes no médio prazo.
Como o investidor iniciante pode interpretar?
- Volatilidade de curto prazo: cortes em projeções de EBITDA podem pressionar a ação no curto prazo. Entender que revisões acontecem é essencial para evitar decisões baseadas apenas em um trimestre fraco.
- Dividendos x recompra: empresas podem remunerar o acionista de formas diferentes; conhecer a diferença ajuda a alinhar expectativas de fluxo de caixa.
- Sensibilidade a preços de energia: companhias geradoras são diretamente afetadas por oscilações do preço de curto prazo e por fatores climáticos (GSF). Isso torna o acompanhamento de relatórios setoriais ainda mais relevante.
Em um cenário de juros básicos (Selic) ainda elevados, ações com fluxo de dividendos consistente costumam ser comparadas a títulos de renda fixa. No entanto, a incerteza sobre preços de energia e clima adiciona risco. Por isso, a análise deve levar em conta horizonte de investimento, tolerância a volatilidade e diversificação de portfólio.
Para o BBI, a combinação de fundamentos estruturais positivos, recompra de ações e potencial de dividendos justifica a visão construtiva para Axia Energia. Já o investidor precisa ponderar os riscos de curto prazo antes de decidir se a tese se encaixa em sua estratégia pessoal.