Investir no risco: como a dívida em default da Venezuela turbinou o retorno de um fundo internacional

Felipe MartinsFelipe MartinsEstratégias de investimento23 horas atrás11 Visualizações

Quando a Venezuela deixou de pagar seus compromissos em 2017, a maior parte do mercado zerou posição. A gestora Tina Vandersteel, da GMO, fez o caminho oposto: aumentou a exposição aos títulos em default, comprando papéis a menos de US$ 0,10 por dólar de valor de face. O resultado apareceu oito anos depois, quando uma combinação de fatores políticos e a escalada dos preços do petróleo empurrou as cotações para cerca de US$ 0,40. O movimento transformou o GMO Emerging Country Debt Fund no líder de desempenho ajustado ao risco entre pares globais, segundo dados compilados pela Bloomberg.

O que acontece quando um país dá calote

Em finanças, default significa que o emissor deixou de cumprir pagamentos de juros ou principal. Os títulos continuam existindo, mas passam a valer muito menos por causa do risco de nunca serem honrados. Para quem permanece na posição, a liquidez despenca — poucos querem comprar algo que pode virar pó — e eventuais negociações se dão a preços de liquidação.

No caso venezuelano, as dificuldades foram ampliadas por sanções dos Estados Unidos, que limitaram o comércio dos papéis. Muitos fundos marcaram as posições a quase zero e preferiram realizar prejuízo, aceitando perdas relevantes.

Do petróleo barato ao petróleo estratégico

Dois eventos mudaram o jogo:

  • Flexibilização das sanções: Washington aliviou parte das restrições, destravando negociações.
  • Nova tensão no Oriente Médio: o conflito no Irã elevou o preço do barril e aumentou o apetite por fontes alternativas de energia. As vastas reservas venezuelanas ganharam valor estratégico.

A especulação de que o governo de Caracas poderia normalizar relações com os EUA e abrir novamente o setor petroleiro levou os títulos a quadruplicar de preço em poucos meses. Como Vandersteel detinha perto de US$ 1 bilhão em valor de face, o impacto no portfólio foi expressivo.

Retorno acima do índice e lições de risco

Segundo a gestora, o fundo rendeu 22% em 2025, contra 14% do benchmark. No período de três anos, o ganho acumulado ficou em 17%, quase o dobro do índice de referência. Para o investidor iniciante, o caso ilustra três pontos:

  • Risco extremo pode demorar a compensar: foram quase oito anos de espera.
  • Liquidez importa: durante boa parte do período, era difícil vender esses ativos.
  • Contexto geopolítico faz preço: mudanças políticas e guerras podem alterar drasticamente a percepção de valor.

Novas apostas: Oriente Médio no radar

Após realizar parte dos lucros na Venezuela, Vandersteel mira outro ponto de tensão. Ela considera que o risco geopolítico ainda não está totalmente refletido nos spreads (diferença de retorno para títulos norte-americanos) de países do Conselho de Cooperação do Golfo — Catar, Kuwait, Emirados Árabes, Omã e Arábia Saudita. Já em Israel, o prêmio de guerra é visto como mais claro.

A estratégia da gestora envolve o chamado basis trade: compra de títulos em dólar do governo israelense, que pagam cupons, combinada à aquisição de credit default swaps (CDS), derivativos usados para se proteger contra um eventual calote. O objetivo é capturar o diferencial entre o rendimento dos papéis e o custo do seguro, mantendo a exposição direcional limitada.

O que isso significa para o investidor brasileiro

Mesmo para quem investe apenas em ativos domésticos — como Tesouro Direto ou CDB atrelado ao CDI — o episódio reforça a importância de:

  • Compreender o risco de crédito: retorno alto costuma vir acompanhado de probabilidade maior de perda.
  • Avaliar liquidez: títulos exóticos podem ficar sem compradores por anos.
  • Observar o cenário macro: petróleo, dólar e conflitos internacionais impactam preços, inclusive de ações e de fundos multimercados locais.

Histórias como a da dívida venezuelana são raras, mas mostram como fatores não financeiros — política externa, guerras e sanções — podem criar distorções profundas nos mercados. Para quem está começando, serve de lembrete de que ganhos extraordinários costumam vir acompanhados de paciência, estômago e, principalmente, compreensão clara dos riscos envolvidos.

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