O fortalecimento do dólar voltou ao centro das discussões depois de declarações de Marcio Appel, cofundador da gestora Adam Capital. Para o gestor, que costuma defender teses fora do consenso, a inteligência artificial (IA) será o catalisador de um forte fluxo de capital para os Estados Unidos, movimento que poderia levar a moeda americana a R$ 8. O real, hoje orbitando a casa dos R$ 5, estaria sendo sustentado por um otimismo que, segundo ele, pode virar “pandemônio” quando o câmbio começar a se ajustar.
O que está por trás da tese
- Corrida por IA: Appel compara o momento atual ao boom da internet nos anos 1990, quando o capital migrou para os EUA, valorizando o dólar em cerca de 60% frente ao euro na época.
- Empresas lucrativas: Ao contrário da virada do milênio, as companhias líderes em IA — como as produtoras de chips e provedores de infraestrutura — já apresentam lucros robustos e múltiplos menos esticados.
- Demanda por capital: A necessidade de investimento para treinar modelos de IA e expandir data centers estimula emissões de ações e dívidas, atraindo recursos globais para Wall Street.
Esse cenário, argumenta o gestor, reduziria a oferta de dólares em mercados emergentes, pressionando moedas como o real. Ele recorda que, nos anos 90, a valorização do dólar provocou crises cambiais em vários emergentes, inclusive o Brasil.
Como o mercado está posicionado
Pelo levantamento da XP citado na entrevista, os fundos macro brasileiros praticamente zeraram a posição vendida — ou seja, já não apostam de forma relevante na queda do dólar. Appel, porém, acredita que ainda há excesso de otimismo com o real devido ao carrego (diferença entre juros locais e externos).
- Taxa Selic: Em 10,50% ao ano, a Selic ainda oferece retorno elevado frente aos juros globais, mas Appel classifica o nível atual como “expansionista”, sugerindo que a taxa não conteria pressões cambiais.
- Fluxo estrangeiro para a Bolsa: Parte do mercado aposta que a entrada de capital externo sustentará o real. O gestor discorda, estimando que o dinheiro continuará migrando para tecnologia nos EUA.
Posicionamento dos fundos da Adam
- Comprada em ações de tecnologia nos EUA: exposição a empresas da cadeia de IA, como fabricantes de semicondutores.
- Vendida em moedas contra o dólar: aposta na valorização da divisa norte-americana.
- Vendida em Bolsa brasileira: visão cautelosa sobre o mercado acionário local.
- Tomada em juros nominais e inflação implícita no Brasil: estratégia que se beneficia de alta das taxas futuras.
Com essa carteira, o fundo Adam Macro II saltou 14,4% em abril, o melhor mês desde 2016, e avançou mais 11,4% até 21 de maio. No acumulado de 12 meses, a rentabilidade chega a 22,2%, mas a volatilidade anualizada ficou em 12%, lembrando que retornos passados não garantem desempenho futuro.
O que o investidor iniciante deve acompanhar
- Movimentos do dólar: a moeda costuma reagir a fluxos de capital, diferencial de juros e percepção de risco. Mudanças rápidas podem impactar investimentos dolarizados e viagens internacionais.
- Selic e inflação: cortes adicionais de juros reduzem o carrego do real. Já uma inflação elevada limita a queda da Selic, podendo conter parte da pressão cambial.
- Exposição cambial da carteira: quem concentra investimentos apenas em reais fica mais sensível a uma disparada do dólar. Diversificação pode mitigar esse risco, mas requer avaliação de perfil e objetivos.
- Setor de tecnologia global: a euforia com IA impulsiona empresas listadas nos EUA. Valuações, lucros e competição regulatória são pontos que merecem atenção.
Por que a discussão importa agora
O debate surge em um momento em que:
- Os principais índices de ações nos EUA renovam recordes puxados por gigantes de tecnologia;
- No Brasil, o real mostra volatilidade adicional com a combinação de Selic em queda e percepção de risco fiscal;
- Investidores institucionais ajustam posições em câmbio, indicando incerteza sobre a direção futura da moeda.
Embora previsões cambiais sejam notoriamente difíceis, a visão da Adam Capital reforça o recado de que a revolução da IA pode ter efeitos que ultrapassam o valuation das empresas de tecnologia, alcançando variáveis macro como dólar, fluxo de capitais e, por consequência, o dia a dia de quem investe no Brasil.