Kapitalo reforça posição em juros reais para atravessar Copom e eleições com menor risco

Mariana CostaMariana CostaRenda Fixa1 hora atrás7 Visualizações

A Kapitalo, uma das maiores gestoras multimercado independentes do país, realizou um ajuste decisivo nos fundos Zeta e Kappa: saiu dos títulos prefixados e passou a concentrar a carteira em juros reais – isto é, taxas já descontada a inflação esperada. Segundo Bernardo Feijó, COO da casa, esses rendimentos estão “elevadíssimos” quando comparados ao histórico brasileiro, abrindo espaço para queda se o próximo governo e o Banco Central conseguirem alinhar política fiscal e monetária.

Por que o juro real está tão alto?

Na prática, o juro real reflete o que o investidor ganha acima da inflação. Esse prêmio, avalia a Kapitalo, subiu porque o mercado passou a exigir proteção extra diante de:

  • Descompasso fiscal: a relação dívida/PIB pode crescer se gastos permanecerem no ritmo atual.
  • Incerteza sobre a Selic: a proximidade da reunião do Copom divide analistas entre pausa, corte ou até reversão dos últimos ajustes.
  • Inflação global resistente: mesmo o recente acordo entre Estados Unidos e Irã não afasta completamente a pressão sobre preços de energia.

Para investidores iniciantes, vale lembrar que um juro real alto encarece o crédito, pressiona empresas endividadas e tende a segurar a atividade econômica, mas também aumenta a atratividade de papéis atrelados à inflação.

Efeito da estratégia nos fundos

O reposicionamento veio depois de um mês de forte recuperação dos multimercados. Em maio, o Zeta avançou 2,97% e liderou o pelotão de fundos macro com mais de R$ 100 milhões. O Kappa, versão de menor risco, subiu 2,15%. Na visão de Feijó, a dispersão de preços que marcou março abriu oportunidades para quem manteve alto grau de flexibilidade.

Menos dependência do Copom, menos sustos na eleição

Ao privilegiar juros reais, a gestora procura uma trava contra dois vetores de volatilidade:

  • Decisões de curto prazo do Banco Central: caso o Copom mantenha a Selic ou a eleve, títulos já casados com inflação tendem a sofrer menos do que prefixados.
  • Calendário eleitoral: com a disputa ainda indefinida, a Kapitalo evita posições que dependam de um vencedor específico. Os juros reais, avalia a casa, podem cair “independentemente de quem for o próximo presidente”, contanto que o novo governo adote disciplina fiscal.

Bolsa defensiva e exposição global

Na renda variável local, os fundos mantêm uma carteira defensiva: comprados em companhias expostas à demanda externa – como mineradoras, siderúrgicas, papel e celulose, transporte e logística – e vendidos em ações mais sensíveis ao consumo interno e aos juros altos.

No exterior, a exposição segue alta, perto de 70% do patrimônio do Zeta. A alocação em bolsas globais é pequena, focada nos EUA e em setores que se beneficiam de avanços em inteligência artificial. O time reduziu tecnologia pura e não participou do IPO da SpaceX.

Commodities e câmbio: ajustes pontuais

  • Petróleo: posição comprada permanece, pois a normalização do fluxo no Estreito de Ormuz deve levar tempo.
  • Ouro: posição zerada em maio, diante do ambiente de juros globais mais altos.
  • Agrícolas: posições vendidas em café e trigo.
  • Câmbio: leve compra em dólar e posição neutra em real, refletindo otimismo moderado com a economia norte-americana.

O que observar daqui para frente

Para o investidor que acompanha o mercado, três pontos podem ditar o ritmo dos juros reais:

  • Próximas sinalizações do Copom sobre a Selic.
  • Evolução do debate fiscal no Congresso, com impacto direto na percepção de risco do Tesouro Nacional.
  • Andamento da corrida eleitoral e a clareza sobre o compromisso de cada candidato com responsabilidade fiscal.

A Kapitalo indica que só deve mudar a carteira brasileira se surgir um favorito claro nas pesquisas. Até lá, o foco permanece em juros reais altos e renda variável defensiva, buscando navegar um semestre marcado por decisões de política econômica e incerteza política.

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