A recente escalada das cotações do petróleo tem sido determinante para os movimentos cambiais observados desde o início da guerra contra o Irã, avalia o economista Samuel Pessôa, pesquisador do BTG Pactual e do FGV Ibre.
No ano passado, a moeda norte-americana recuou cerca de 10% frente a uma cesta de divisas de países desenvolvidos, variação semelhante à registrada diante do real. O comportamento contrariou o cenário previsto pelos livros-texto, já que, em 2025, o então presidente Donald Trump elevou tarifas de importação, medida que costuma pressionar o dólar para cima em regimes de câmbio flutuante.
Pessôa lembra que, além do efeito tarifário, a política comercial errática aumentou a incerteza global, o que normalmente reforçaria a procura por títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Ainda assim, o dólar se enfraqueceu. Para o economista, o mercado passou a enxergar deterioração institucional no país, percepção reforçada por relatórios que apontam erosão da democracia norte-americana.
Na mesma linha, o economista português Ricardo Reis afirmou ao Valor Econômico que o “privilégio exorbitante” dos títulos do Tesouro — capacidade de atrair recursos em momentos de tensão — se perdeu.
Mesmo com a suposta perda desse diferencial, o dólar voltou a ganhar força depois que o conflito com o Irã começou. O índice DXY — que compara a moeda dos EUA com euro, iene, libra, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço — avançou 0,6% desde o início da guerra.
Para Pessôa, a explicação está nos termos de troca. Os Estados Unidos exportam petróleo, enquanto todos os países da cesta do DXY são importadores. A valorização da commodity, portanto, favorece a balança americana em relação a essas economias.
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No mesmo período, o real também se fortaleceu ante o dólar. O Brasil, lembra o economista, apresenta superávit em petróleo e derivados — mesmo contando o déficit em fertilizantes — superior ao dos EUA.
Um estudo de Lívio Ribeiro, pesquisador do FGV Ibre, indica que a alta nas cotações das commodities explica integralmente o ganho da moeda brasileira no intervalo analisado. Já relatório de Iana Ferrão, do BTG Pactual, encontrou correlação de 94% entre a valorização cambial e o saldo da balança de petróleo, derivados e fertilizantes em países emergentes.
Segundo Pessôa, a trajetória das moedas desde o início do conflito foi liderada pelo preço do petróleo. Caso a guerra termine e as cotações recuem aos níveis anteriores, é esperado algum movimento de devolução nos câmbios. A duração do choque, contudo, dependerá dos danos já causados a infraestruturas de extração, armazenamento, refino e transporte do combustível.