Leverage sozinha não basta: produtividade é chave para avaliar risco no agro, diz Agrolend

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaAções6 horas atrás13 Visualizações

Uma onda recente de inadimplência e recuperações judiciais no agronegócio acendeu o sinal de alerta entre bancos, fundos e fintechs que financiam o setor. Para Alan Glezer, CEO da Agrolend, o maior equívoco nessa leitura de risco é tratar a alavancagem do produtor rural como variável isolada.

Por que a dívida do produtor não conta a história inteira

Alavancagem é, em termos simples, a relação entre o que um negócio deve e o que ele de fato gera de recursos. No campo, porém, há particularidades que complicam a conta:

  • Arrendamento de terras – Muitos produtores cultivam áreas alugadas, o que transforma o custo do arrendamento em parcela relevante das despesas.
  • Máquinas financiadas – Tratores, colheitadeiras e equipamentos de alto valor são, quase sempre, comprados a prazo, aumentando o endividamento nominal.

Se o investidor olhar apenas para o tamanho da dívida, pode concluir que o produtor está excessivamente exposto, quando, na prática, ele pode sustentar o passivo graças a altos níveis de produtividade por hectare.

O binômio alavancagem + produtividade

Segundo Glezer, o verdadeiro desafio é cruzar duas métricas:

  • Alavancagem – Total de obrigações financeiras em comparação ao patrimônio ou à geração de caixa.
  • Produtividade – Quantidade de sacas ou toneladas colhidas por área cultivada.

Um produtor altamente endividado, mas que consegue colher duas ou até três safras por ano, tende a gerar receita suficiente para honrar compromissos. Já outro com menor dívida, mas produtividade abaixo da média, oferece risco maior de inadimplência.

Cenário atual: margens pressionadas e juros altos

O setor vive um ciclo de aperto em margens, resultado da combinação de preços internacionais mais voláteis e custos de insumos ainda elevados. A isso se somam taxas de juros domésticas em patamar superior ao visto há alguns anos, o que encarece:

  • Linhas de crédito rural convencionais;
  • Emissões de CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio);
  • Financiamentos oferecidos por fintechs e bancos de nicho.

Nesse ambiente, a avaliação fina de risco ganha peso, pois erros de precificação podem rapidamente virar default.

O que muda para o investidor pessoa física

Dívidas rurais podem chegar até você de várias formas: CRAs, Fiagros, debêntures incentivadas de agronegócio ou, indiretamente, pelos balanços de bancos listados na B3. Quando a inadimplência aumenta, o impacto aparece em:

  • Maiores provisões de crédito em instituições financeiras;
  • Oscilação de preços de títulos lastreados em recebíveis agrícolas;
  • Rentabilidade dos Fiagros, que dependem do pagamento em dia pelos produtores.

Saber que produtividade é peça central na análise pode ajudar o investidor a entender por que dois títulos aparentemente semelhantes em valor e prazo pagam cupons diferentes.

Visão estrutural continua positiva

Mesmo diante do momento mais tenso, Glezer mantém perspectiva favorável para o agronegócio brasileiro. Entre os fatores citados estão:

  • Capacidade de colher mais de uma safra por ano em várias regiões;
  • Ganhos de produtividade com adoção de inteligência artificial e novos insumos;
  • Expansão da área agricultável e melhoria gradual da logística.

Na prática, o executivo sinaliza que o ciclo atual exige cautela — tanto de quem empresta quanto de quem investe em produtos ligados ao agro —, mas não altera os fundamentos de longo prazo do setor.

Para o investidor iniciante, a lição é clara: avaliar risco no campo vai além de checar o tamanho da dívida. Entender como a produtividade sustenta (ou não) essa alavancagem ajuda a interpretar melhor os movimentos de preços de ativos ligados ao agronegócio.

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