Propostas “take it or leave it” dos EUA travam avanço de acordo comercial com o Brasil

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiroontem27 Visualizações

Um rascunho de propostas dos Estados Unidos para um futuro acordo comercial com o Brasil veio à tona nesta semana e pôs luz sobre a distância entre as expectativas de Washington e os limites legais e econômicos de Brasília. O texto, alinhado ao modelo recentemente fechado pelos EUA com Argentina, Equador e Guatemala, contém exigências consideradas inegociáveis por especialistas em comércio exterior.

Etanol sem tarifa, mas açúcar sem contrapartida

No front agrícola, os norte-americanos pedem tarifa zero para o etanol vindo dos EUA, sem oferecer abertura equivalente para o açúcar brasileiro — um impasse que atravessa décadas nas conversas bilaterais. Caso avançasse, o benefício ficaria concentrado nos produtores norte-americanos de milho, matéria-prima do etanol deles, enquanto usinas brasileiras veriam a competição aumentar sem acesso ampliado ao mercado de açúcar dos EUA.

Para o investidor de agronegócio listado na B3, a manutenção do status quo evita pressão adicional sobre as cotações de companhias exportadoras de açúcar. Já o setor sucroenergético continua atento a eventuais mudanças na tarifa do etanol, que influenciam margens e decisões de mix entre açúcar e biocombustível.

Exigências que colidem com acordos já assinados

O documento também veta restrições ao uso de “certos termos” em rótulos e embalagens, o que conflita com o acordo Mercosul–União Europeia que protege indicações geográficas (como o “queijo canastra”). Além disso, propõe criar um grupo binacional para “estabilidade de preços” de commodities agrícolas — leitura de mercado: tentativa de limitar a competitividade brasileira em soja, milho e carnes.

Setor digital: moratória permanente de tarifas

No ambiente online, Washington quer que o Brasil apoie na OMC uma moratória definitiva sobre tarifas aplicadas a transmissões eletrônicas. Parece tecnicamente neutro, mas, na prática, tolheria a possibilidade de o governo tributar serviços digitais no futuro, justamente quando o país discute a reforma tributária. Para empresas de tecnologia listadas em Bolsa e para investidores em fintechs, a indefinição sobre o tema segue no radar porque mexe com custos, preços e receitas de serviços como streaming, nuvem e pagamentos instantâneos.

  • Por que importa: sem margem para tributar, o governo precisaria compensar a arrecadação em outras bases, o que pode impactar consumo, inflação e, indiretamente, a taxa Selic.

Indústria: zero tarifa só para os EUA — e risco de contestações

A proposta sugere eliminar tarifas de importação de químicos, veículos e medicamentos exclusivamente para produtos norte-americanos. Essa preferência violaria a cláusula de Nação Mais Favorecida da OMC, abrindo brecha para contestações judiciais no próprio Brasil. Para montadoras e laboratórios com ações na B3, a medida poderia significar competição desigual, pressionando margens e investimentos locais. Como o texto afronta normas internacionais, a chance de prosperar é considerada baixa.

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Imagem: Reprodução | Trader Iniciante

Padrões regulatórios “made in USA”

Em vez de harmonização bilateral, os EUA querem que o Brasil adote, sem filtro, regras de segurança veicular americanas e autorizações do FDA para medicamentos. Na avaliação de negociadores brasileiros, isso reduziria a autonomia de agências como a Anvisa, além de criar custos de adaptação para fabricantes nacionais.

Minerais críticos e a sombra da disputa EUA-China

O capítulo sobre minerais estratégicos traz cláusula para limitar investimentos de “entidades estrangeiras de preocupação” — leitura direta: capitais chineses. O item também pede reavaliação da venda de ativos de níquel da Anglo-American, negócio entre privados que já passou pelos órgãos reguladores. Para mineradoras listadas, a incerteza regulatória desincentivaria aportes em projetos essenciais à transição energética (cobalto, lítio e níquel) e poderia afetar projeções de receita em dólar.

Contrapartida vaga: “reduzir” tarifas contra produtos brasileiros

Em troca das concessões amplas, os EUA oferecem apenas a promessa — não o compromisso — de reduzir tarifas hoje aplicadas a bens brasileiros. Na prática, permanece intocada a Lista de Tarifas Seção 232, que encarece exportações de aço e alumínio nacionais. Sem clareza de cronograma ou extensão, a vantagem fica no campo das intenções.

O que muda para o investidor?

  • Câmbio: a ausência de acordo não altera, no curto prazo, fluxos comerciais capazes de pressionar o dólar. O foco segue na trajetória da Selic e na política monetária dos EUA.
  • Bolsa: empresas de açúcar, etanol, autopeças, químicos e tecnologia ficam livres, por ora, de mudanças radicais de competitividade. O pleito por maior acesso ao mercado norte-americano continua, mas sem avanço concreto.
  • Renda fixa: sem pacto tarifário, a balança comercial mantém perfil semelhante, favorecendo superávit que ajuda no prêmio de risco país e, indiretamente, nos juros de títulos públicos.

Próximos passos

Especialistas veem margem estreita para retomar a negociação nesses termos. A prioridade brasileira permanece no acordo Mercosul–União Europeia e em tratativas na Organização Mundial do Comércio. Para investidores, o episódio reforça que disputas comerciais — sobretudo em contexto geopolítico de EUA x China — podem gerar ruído, mas mudanças efetivas costumam depender de amplo consenso interno.

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