Supermercados avançam sobre o varejo farmacêutico e esquentam disputa por preços de medicamentos

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiro4 horas atrás9 Visualizações

O Assaí abriu nesta quinta-feira (16) a primeira unidade da Assaí Farma, dentro do atacarejo localizado na Marginal Tietê, em São Paulo. É a estreia oficial dos supermercados na venda de medicamentos após a lei 15.357/2026, que permitiu o modelo, mas impôs exigências como área segregada e farmacêutico em tempo integral.

O que mudou na legislação

  • Farmácias devem ter entrada, caixa e estoque separados do salão de vendas.
  • Presença obrigatória de farmacêutico durante todo o horário de funcionamento.
  • Venda inclui medicamentos com e sem prescrição, além de serviços clínicos (testes de glicemia, aplicação de vacinas, medição de pressão).

Na prática, o governo manteve o controle sobre segurança sanitária, mas abriu espaço para novos canais de distribuição em busca de concorrência de preços.

Por que o setor chamou atenção dos supermercados

Segundo o Sindusfarma, o mercado brasileiro de medicamentos movimentou R$ 227 bilhões em 2025, crescimento de 12 % em um ano. Dessa expansão, boa parte veio das chamadas “canetas emagrecedoras”, cuja demanda subiu 42 % para 8,7 milhões de unidades.

Os supermercados enxergam duas vantagens:

  • Alta frequência de visita – em média sete vezes por mês, segundo a Abras, contra 1,5 vez às farmácias.
  • Capilaridade: redes de atacarejo costumam ter formatos grandes, capazes de reservar espaço dedicado à farmácia sem comprometer a operação principal.

Quem está na disputa

  • Assaí: 25 farmácias previstas em 2026 e plano de atingir 250 unidades em até três anos.
  • Carrefour/Atacadão: já opera 98 drogarias fora das lojas e prepara dois pilotos internos no 4º trimestre.
  • Grupo Mateus: inaugurou a Mix Toureiro Farma, loja de rua que marca entrada no segmento.
  • Plurix: testes em seis supermercados no interior paulista.
  • RD Saúde (Raia Droga Sil): líder absoluto, com mais de 3.500 farmácias e abertura de 300 novas lojas só em 2026.

Margem apertada e formação de preço

No Brasil, a CMED regula o Preço Máximo ao Consumidor (PMC). A margem bruta das farmácias varia entre 25 % e 33 % sobre o Preço Fábrica. Supermercados avaliam operar com 20 %, mas precisarão de escala para negociar descontos com a indústria – algo que o varejo farmacêutico domina há décadas.

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Imagem: Reprodução | Trader Iniciante

Impacto econômico e para o investidor

  • Ações de varejo alimentar podem ganhar nova fonte de receita, mas também assumem complexidade regulatória maior.
  • Redes farmacêuticas listadas enfrentam mais concorrência em meio a um ciclo de desinflação gradual e juros ainda elevados. O custo de capital alto mantém a disciplina em expansão.
  • Consumidor final pode se beneficiar de pressão competitiva sobre preços, especialmente em itens de prescrição contínua.
  • Empresas de logística e distribuição observam possível aumento de volume, sobretudo se supermercados passarem a concentrar compras para reduzir margens.

Desafios operacionais

  • Necessidade de capital dedicado para montagem de estoques sensíveis a controle de temperatura e validade.
  • Gestão de duas jornadas diferentes: compra por impulso de mercearia versus compra planejada de medicamentos.
  • Treinamento de equipes e adequação a exigências sanitárias rígidas.

Movimentos paralelos na cadeia

Fabricantes também testam novos canais. A Novo Nordisk tentou vender diretamente ao consumidor via parceiro online, mas recuou após reação de grandes redes. Marketplaces como Mercado Livre adquiriram farmácias para contornar as regras e pilotam vendas de OTC (medicamentos sem prescrição).

Até aqui, o consenso entre analistas do setor é que supermercados só ganharão tração se conseguirem escala de compra similar às grandes redes. Para o investidor, o tema merece acompanhamento, pois altera a dinâmica competitiva de dois ramos relevantes da Bolsa: o varejo alimentar e o varejo farmacêutico.

A regulamentação rigorosa e a necessidade de margem menor indicam um processo de consolidação lento, porém potencialmente transformador para a estrutura de preços no longo prazo.

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