Quando a Venezuela deixou de pagar seus compromissos em 2017, a maior parte do mercado zerou posição. A gestora Tina Vandersteel, da GMO, fez o caminho oposto: aumentou a exposição aos títulos em default, comprando papéis a menos de US$ 0,10 por dólar de valor de face. O resultado apareceu oito anos depois, quando uma combinação de fatores políticos e a escalada dos preços do petróleo empurrou as cotações para cerca de US$ 0,40. O movimento transformou o GMO Emerging Country Debt Fund no líder de desempenho ajustado ao risco entre pares globais, segundo dados compilados pela Bloomberg.
Em finanças, default significa que o emissor deixou de cumprir pagamentos de juros ou principal. Os títulos continuam existindo, mas passam a valer muito menos por causa do risco de nunca serem honrados. Para quem permanece na posição, a liquidez despenca — poucos querem comprar algo que pode virar pó — e eventuais negociações se dão a preços de liquidação.
No caso venezuelano, as dificuldades foram ampliadas por sanções dos Estados Unidos, que limitaram o comércio dos papéis. Muitos fundos marcaram as posições a quase zero e preferiram realizar prejuízo, aceitando perdas relevantes.
Dois eventos mudaram o jogo:
A especulação de que o governo de Caracas poderia normalizar relações com os EUA e abrir novamente o setor petroleiro levou os títulos a quadruplicar de preço em poucos meses. Como Vandersteel detinha perto de US$ 1 bilhão em valor de face, o impacto no portfólio foi expressivo.
Segundo a gestora, o fundo rendeu 22% em 2025, contra 14% do benchmark. No período de três anos, o ganho acumulado ficou em 17%, quase o dobro do índice de referência. Para o investidor iniciante, o caso ilustra três pontos:
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
Após realizar parte dos lucros na Venezuela, Vandersteel mira outro ponto de tensão. Ela considera que o risco geopolítico ainda não está totalmente refletido nos spreads (diferença de retorno para títulos norte-americanos) de países do Conselho de Cooperação do Golfo — Catar, Kuwait, Emirados Árabes, Omã e Arábia Saudita. Já em Israel, o prêmio de guerra é visto como mais claro.
A estratégia da gestora envolve o chamado basis trade: compra de títulos em dólar do governo israelense, que pagam cupons, combinada à aquisição de credit default swaps (CDS), derivativos usados para se proteger contra um eventual calote. O objetivo é capturar o diferencial entre o rendimento dos papéis e o custo do seguro, mantendo a exposição direcional limitada.
Mesmo para quem investe apenas em ativos domésticos — como Tesouro Direto ou CDB atrelado ao CDI — o episódio reforça a importância de:
Histórias como a da dívida venezuelana são raras, mas mostram como fatores não financeiros — política externa, guerras e sanções — podem criar distorções profundas nos mercados. Para quem está começando, serve de lembrete de que ganhos extraordinários costumam vir acompanhados de paciência, estômago e, principalmente, compreensão clara dos riscos envolvidos.
Use as ferramentas gratuitas do Trader Iniciante para simular investimentos, acompanhar o Tesouro Direto e consultar resultados atualizados.