A Copasa confirmou que recebeu apenas uma proposta para o posto de investidor de referência: a Equatorial Energia ofereceu R$ 49,03 por ação para adquirir 30% do capital da companhia mineira de saneamento, o que representa cerca de R$ 5,5 bilhões. O valor supera em 3,8% o piso de R$ 47,23 fixado pelo governo de Minas Gerais após a primeira tentativa frustrada de venda.
O que acontece agora
- A partir desta sexta-feira (5) começa o bookbuilding, fase em que investidores institucionais e individuais indicam quanto estão dispostos a pagar por ações adicionais.
- Nessa etapa serão ofertados outros 15% da Copasa. A liquidação está prevista para 11 de junho.
- Se a demanda do mercado apontar um preço por ação superior ao oferecido pela Equatorial, os 45% originalmente reservados a um sócio estratégico serão distribuídos inteiramente na Bolsa. Nesse cenário, a Copasa torna-se uma corporation, sem acionista controlador.
- Se o preço do bookbuilding ficar igual ou abaixo dos R$ 49,03, a Equatorial leva os 30% e ainda pode ampliar participação na segunda rodada, elevando o investimento total para perto de R$ 8 bilhões.
Por que o interesse foi tão limitado
O desenho da privatização repete o que se viu na Sabesp em 2024: só a Equatorial formalizou proposta firme, enquanto a Aegea, que chegou a avaliar o ativo, desistiu após contestar riscos e prazos. Entre os pontos de atenção citados por analistas:
- Modelo de governança: o investidor de referência não teria controle total, dividindo poder com o Estado até que a fatia pública caia abaixo de 10%.
- Cláusulas contratuais: a renegociação do contrato de Belo Horizonte — que responde por 40% da receita — incluiu repasses bilionários ao município e foi considerada “mal-redigida” por especialistas.
- Momento financeiro dos potenciais concorrentes: a Aegea revisou balanços, registrou baixa contábil de R$ 5 bilhões e viu a alavancagem subir para 4,51 vezes o Ebitda, o que reduz apetite por novos desembolsos.
Impacto para o investidor de varejo
Para quem já possui ou acompanha as ações da Copasa negociadas na B3, três pontos merecem atenção:
- Volatilidade: até a precificação final, oscilações tendem a aumentar. Mudanças de última hora no interesse institucional influenciam o preço de tela.
- Governança futura: com a entrada de um sócio estratégico, decisões operacionais podem ganhar agilidade. Se virar corporation, a companhia dependerá mais de conselhos independentes e da dispersão acionária.
- Uso dos recursos: o Estado informou que pretende direcionar o montante para amortizar parte da dívida de R$ 180 bilhões com a União e para um fundo de infraestrutura. Isso reduz pressão fiscal regional, mas não afeta diretamente o caixa da Copasa.
Contexto macro e setor de saneamento
Desde o novo Marco Legal do Saneamento de 2020, governos estaduais buscam capital privado para cumprir a meta de universalizar água e esgoto até 2033. O movimento coincide com juros em queda — a Selic passou de 13,75% para 10,50% ao ano desde agosto de 2023 —, o que em tese favorece projetos intensivos em investimento. Mesmo assim, o apetite de grandes grupos arrefeceu após altas recentes do dólar e incertezas regulatórias.
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
Na Bolsa, o segmento tem apenas três companhias listadas: Sabesp, Copasa e Sanepar. O resultado da operação mineira tende a servir de termômetro para novas desestatizações no país.
O que observar nos próximos dias
- Preço final do bookbuilding em 11 de junho.
- Volume de demanda: forte procura pode sinalizar confiança do mercado, com reflexos imediatos na cotação.
- Reação dos títulos públicos de Minas Gerais: arrecadação com a venda pode influenciar percepção de risco do estado.
- Posicionamento de agências de rating sobre Copasa e Equatorial após a conclusão do processo.
A definição do modelo — com ou sem investidor de referência — dará o tom para a próxima fase do setor de saneamento na Bolsa e será acompanhada de perto por quem busca entender como mudanças societárias podem impactar valor, gestão e, em última instância, o retorno de longo prazo das empresas de utilidade pública.