O tradicional churrasco de verão dos norte-americanos pode sair ainda mais caro nos próximos anos. Segundo Nate Rempe, presidente da Omaha Steaks, o rebanho bovino dos Estados Unidos está no menor nível desde 1952 e a recomposição da oferta pode ficar para 2028 ou 2029. Enquanto isso, o preço médio no varejo alcançou US$ 9,64 por libra em abril, 13% acima de um ano atrás, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
Rebanho encolhe e preço bate recorde
- O rebanho norte-americano vem caindo há vários anos, reflexo de seca prolongada em importantes regiões pecuárias e do aumento nos custos de ração.
- Em paralelo, a demanda interna continua firme, especialmente nas datas de maior consumo, como o 4 de Julho.
- O desequilíbrio entre oferta restrita e apetite do consumidor sustenta o preço em máximas históricas.
Por que a recomposição demora tanto?
- Para aumentar o rebanho, os pecuaristas precisam reter mais fêmeas para reprodução em vez de enviá-las ao abate. Esse ciclo biológico leva de 18 a 24 meses por geração.
- O processo ficou ainda mais lento após o reaparecimento do parasita screwworm em partes do Texas e do Novo México, o que reduziu o fluxo de bezerros vindos do México — fonte de 4% a 5% do gado vivo consumido nos EUA.
- Com menos animais chegando ao mercado, a oferta continua apertada e afasta qualquer alívio rápido nos preços.
Impacto econômico e para o investidor
- Alimentos representam peso relevante nos índices de inflação. A carne bovina mais cara mantém pressão sobre o CPI norte-americano, fator monitorado pelo Federal Reserve na definição dos juros.
- Empresas globais de proteína listadas na B3 — como JBS e Marfrig — têm operações nos EUA. O repasse de custo mais alto do boi pode impactar margens e receitas, dependendo da capacidade de reajustar preços ao consumidor.
- Nos mercados futuros de commodities, contratos de gado em pé tendem a refletir a escassez prolongada, mantendo volatilidade elevada.
- Para o investidor iniciante, o episódio ilustra como choques de oferta em setores específicos podem transbordar para a inflação geral, afetando desde fundos de renda fixa atrelados ao IPCA até a expectativa para a taxa Selic no Brasil.
O que observar daqui para frente
- Evolução do rebanho relatada trimestralmente pelo USDA.
- Desenvolvimento do surto de screwworm e eventuais restrições sanitárias adicionais.
- Investigações antitruste do Departamento de Justiça norte-americano sobre formação de preços no setor de frigoríficos, que podem influenciar a dinâmica concorrencial.
- Indicadores de inflação de alimentos nos EUA e suas repercussões nas decisões do Fed, que costumam repercutir no câmbio e nos ativos de mercados emergentes.
Com oferta restrita e demanda resiliente, o cenário base da indústria bovina nos Estados Unidos continua de preços elevados por um período prolongado. O relógio biológico do gado não permite atalhos — e o bolso do consumidor, bem como o radar dos investidores, segue atento à próxima safra de bezerros.
Imagem: Arabella Bennett FOXBusiness