O Brasil permanece na rota principal dos investidores internacionais desde que a busca por commodities e energia se intensificou, avalia André Lion, sócio e gestor de renda variável da Ibiuna Investimentos. Esse movimento fez o Ibovespa praticamente dobrar de valor e, segundo o gestor, ainda existe espaço para novas altas, sobretudo se o juro real cair para perto de 5% ao ano.
Lion observa que o ingresso de capital externo foi “desproporcional” em janeiro e fevereiro, desacelerou com o início da guerra entre Rússia e Ucrânia e ficou negativo nas duas últimas semanas analisadas. Ele classifica a pausa como saudável e afirma que oscilações são naturais.
O gestor relembra que o conflito elevou os preços globais de energia. Parte desse aumento, diz ele, é estrutural — reflexo de maior risco geopolítico, ajustes na infraestrutura e recomposição de estoques. A outra parte é conjuntural, ligada à incerteza do conflito, e pode desaparecer se houver um acordo entre Estados Unidos e Irã. Com a normalização, os bancos centrais voltariam a cortar juros; no caso brasileiro, a taxa básica poderia recuar dos atuais 14,5% nominais.
Lion ressalta que o Brasil se beneficia enquanto o mundo evita extremos. “Se houver recessão global, o investidor busca segurança e sai de emergentes; se a economia dos EUA acelerar demais, ele concentra capital lá”, resume. No cenário intermediário, o País continua como “destino natural” por liquidez, tamanho de mercado e peso de commodities na bolsa.
Sobre a sucessão presidencial, o gestor afirma que as pesquisas recentes mostram disputa equilibrada. Para o estrangeiro, um eventual quarto mandato de Lula é visto como continuidade, enquanto uma alternância de poder pode abrir caminho para ajustes fiscais mais profundos. “Na leitura internacional, ou fica igual ou melhora muito”, diz.
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Mesmo com o rali de quase 100% para o estrangeiro, a maior parte das pessoas físicas brasileiras permanece fora da bolsa. O juro real de 7% a 8% sobre a inflação torna a renda fixa atraente, explica Lion. Caso esse juro caia para a faixa de 5%, alguns ativos poderiam valorizar entre 30% e 50%.
Na correção recente, a Ibiuna aumentou a exposição em Petrobras (PETR4). Com o Brent estabilizado entre US$ 80 e US$ 90, a estatal deve gerar caixa robusto e pagar dividendos, argumenta Lion. Fora do setor de petróleo, a casa busca empresas resilientes a juros altos, com alavancagem controlada, como shoppings, geradoras de energia e varejistas selecionadas. Entre elas, cita C&A (CEAB3), que chegou a ser negociada a menos de sete vezes o lucro.
Lion aconselha quem ainda não tem ações a começar gradualmente, equilibrando a carteira. “Oportunidade não é sinônimo de ‘muito barato’. Invista de forma recorrente e em volume que permita dormir tranquilo”, conclui.