Risco político trava Bolsa e segura real apesar de sinais de desinflação nos EUA

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiro1 hora atrás26 Visualizações

O mercado brasileiro viveu dois mundos nesta quarta-feira (15). No exterior, números de inflação mais comportados nos Estados Unidos reforçaram a leitura de que o Federal Reserve pode seguir em compasso de espera para novos ajustes de juros. Aqui dentro, uma nova pesquisa eleitoral reacendeu o temor de aumento de gastos públicos e fez prevalecer a cautela.

Inflação americana perde força

Depois da deflação surpresa do CPI — índice que mede o custo de vida do consumidor —, o PPI, que capta a inflação na porta das fábricas, também veio abaixo do esperado em junho. O próprio Fed, em seu Livro Bege, descreveu uma economia crescendo de maneira “leve a moderada”, com salários contidos e previsão de mais alívio nos preços por causa da queda do petróleo.

Para investidores globais, isso reduz o risco de novos aumentos de juros nos EUA. Juros estáveis lá fora costumam favorecer ativos de países emergentes, pois deixam o dólar menos atraente e mantêm a busca por rendimentos maiores em outros mercados.

Pesquisa eleitoral reacende risco fiscal

No Brasil, contudo, o foco se voltou para a divulgação de um levantamento Genial/Quaest indicando a possibilidade de vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda no primeiro turno em outubro. A interpretação predominante foi de continuidade de uma política fiscal considerada mais expansionista.

Quando o mercado enxerga chances mais altas de gastos públicos, a consequência direta é o aumento do prêmio exigido para financiar a dívida do governo. Na prática, isso se traduz em alta das taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) de prazos longos. O DI para janeiro de 2031 subiu para 14,245%, e vencimentos ainda mais distantes ficaram ainda mais pressionados.

Consequências na Bolsa e no câmbio

  • Ibovespa: virou para o vermelho e fechou em 176.011 pontos, queda de 0,36%. Foi o segundo recuo consecutivo, elevando a perda na semana para 1%.
  • Dólar: no mercado global a divisa caiu, mas o real não acompanhou. A moeda americana terminou estável, a R$ 5,0780. No mês ainda recua 1,6%.
  • Volume financeiro: R$ 15,6 bilhões, pouca coisa acima da média de julho, mas abaixo da média dos últimos 12 meses.

Setores mais sensíveis e curva de juros

Empresas ligadas à economia doméstica — especialmente consumo e varejo — costumam sofrer em dias de alta de juros futuros, pois custos de financiamento sobem e a renda disponível cai. Já papéis exportadores, como mineradoras e siderúrgicas, ficaram menos pressionados, contando com o colchão gerado pelo dólar ainda acima de R$ 5,00.

Na curva de juros, a diferença entre contratos curtos e longos aumentou. Os DIs de curto prazo caíram depois que o volume de serviços de maio recuou 0,4%, sinal de atividade mais fraca que pode ajudar o Banco Central a segurar a inflação sem apertar ainda mais a Selic. Nos vencimentos longos, porém, o fator fiscal falou mais alto.

O que observar a seguir

  • Leilão do Tesouro: acontece nesta quinta (16) e mostrará se o Tesouro precisará pagar ainda mais caro para rolar a dívida.
  • Agenda de inflação nos EUA: novos indicadores podem reforçar ou contrariar a leitura de desinflação.
  • Cena eleitoral: novas pesquisas tendem a manter a sensibilidade do mercado alta até outubro.

Implicações para o investidor iniciante

Oscilações motivadas por política costumam ser intensas, mas nem sempre duradouras. Entender que juros longos afetam o custo de financiamento das empresas e, por consequência, o preço das ações é essencial para quem pensa em prazos maiores. Já no câmbio, fatores externos e internos podem se cancelar, como ocorreu hoje, mantendo a cotação próxima da estabilidade.

Manter atenção ao risco fiscal e ao comportamento da Selic ajuda a avaliar o equilíbrio entre renda fixa e variável dentro de uma carteira diversificada, sem se apoiar em movimentos de curtíssimo prazo.

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