A corrida por capacidade de processamento para inteligência artificial (IA) está reabilitando nomes que marcaram a internet discada. Dell, Nokia, Cisco, Lenovo, Intel, Texas Instruments e Micron – estrelas da chamada bolha das pontocom – avançaram, em média, 158% em 2026, acrescentando cerca de US$ 1,7 trilhão em valor de mercado.
O que mudou desde os anos 1990
- Demanda real por hardware de IA: data centers precisam de servidores mais potentes, memória de alta largura de banda e redes ópticas capazes de mover grandes volumes de dados.
- Escassez de componentes: após anos de investimento contido, a oferta de chips, placas de rede e módulos de memória não acompanha a procura, pressionando preços e margens.
- Diversas fontes de capital: fundos de pensão, ETFs globais e até governos (caso da participação americana na Intel) estão financiando a expansão.
Para o investidor iniciante, o movimento reforça que a revolução da IA não depende apenas de softwares como ChatGPT, mas de uma cadeia completa de hardware – setor historicamente mais cíclico e sensível a excesso de capacidade.
Empresa a empresa: por que cada ação voltou a subir
- Dell: alta de 33% em um único dia após resultado que mostrou explosão na procura por seus servidores de IA. Hoje vale US$ 125 bi além do recorde de 2000.
- Lenovo: diversificação em produtos e serviços de IA já representa 40% das receitas; papel acumula 159% no ano no índice Hang Seng.
- Nokia: foco em equipamentos de rede e aquisição da americana Infinera impulsionaram ganho de 124% em 2026.
- Cisco: previsão de receita robusta e realocação de recursos para IA devolveram a ação ao pico histórico, com +56% no ano.
- Intel: novos chips Xeon, acordo preliminar para produzir semicondutores da Apple e investimento de US$ 5 bi da Nvidia levaram o papel a +211%, melhor desempenho já registrado.
- Texas Instruments: chips destinados a servidores de IA fazem a unidade de data center ultrapassar US$ 1 bi em receita anual; ação sobe 76% em 2026.
- Micron: demanda por memória de alta largura de banda fez a fabricante saltar de US$ 500 bi para US$ 1 tri em apenas 48 pregões; papel avança 903% em 12 meses.
Correlação com juros, inflação e mercado brasileiro
No exterior, apesar dos juros ainda elevados após o ciclo de aperto monetário pós-pandemia, a expectativa de redução gradual das taxas em 2027 tem sustentado múltiplos mais altos para empresas de crescimento. No Brasil, a taxa Selic em dois dígitos mantém a renda fixa atraente, mas a volta dessas veteranas desperta interesse em BDRs (recibos de ações estrangeiras) e em ETFs ligados a semicondutores listados na B3, alternativas que oferecem exposição sem necessidade de remessa internacional.
Para quem acompanha o câmbio, o forte fluxo para empresas de tecnologia costuma pressionar o dólar para cima frente a moedas de países emergentes, inclusive o real. Já a inflação local tende a sentir pouco impacto direto, mas um cenário externo mais favorável à inovação pode reduzir custos de hardware no longo prazo.
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
O que observar daqui para frente
- Capacidade produtiva: se fabricantes ampliarem oferta rapidamente, margens podem ceder, revertendo parte da exuberância.
- Ciclo de investimentos de IA: a adoção corporativa precisa se converter em receita recorrente para evitar um novo estouro de bolha.
- Política de juros dos principais BCs: cortes ou novas altas alteram o apetite por ativos de risco, afetando diretamente o preço das ações.
- Regulação sobre IA e semicondutores: restrições a exportações de chips, principalmente entre EUA e China, podem reordenar cadeias de suprimento.
Ainda que o passado lembre os riscos de euforia, o contexto atual conta com receitas concretas relacionadas à IA. O investidor iniciante deve avaliar se está exposto a esses ciclos de tecnologia – seja via BDRs, seja indiretamente por fundos que carregam essas empresas – lembrando que o segmento de hardware costuma apresentar volatilidade acima da média do mercado.